| Carlos Ferreira De Oliveira Neto nasceu em São Raimundo Nonato a 18 de fevereiro de 1907. Estudou Humanidades no Liceu Piauiense, bacharelando-se em Direito pela Faculdade de Direito do Piauí, tendo sido o orador de sua turma em 1938. Poeta de grandes recursos, funcionário aposentado da Alfândega, exerceu a advocacia. Membro fundador da Associação Piauiense de Imprensa, assíduo colaborador de jornais e revistas de Teresina e do Almanaque da Parnaíba. Ferrenho opositor da idéias modernistas, especialmente na poesia. Convidado várias vezes para ingressar na Academia Piauiense de Letras, recusou o convite. Sua poesia tem recebido do Brasil inteiro e até de Portugal, as melhores referências. Faleceu em 1983. |
Obras: Ícaro (1951); Árias Sonoras (1970); Últimas Árias (1971); Ressurreição (1972); Festival de Amor (1971); Miscelânia Poética (1980); Fiapos do Coração (1980); Fonte de Granito (1982); Despedida (1983); Trovas da Agonia (Póstumo) (1985). |
O Solitário
O Parnaíba
Silhueta Pagã
Trovas
Despedida
O Solitário
Tristonho e desolado, um homem solitário,
imitava, no aspecto, o Cristo no Calvário.
Em chagas tinha os pés, as mãos e o peito abertos,
e andava a mendigar o pão pelos desertos.
Na voz tinha a ternura e o amor do Nazareno,
prendendo todo mundo em doce olhar sereno.
Solícito e discreto a todos atendia.
Pregava o amor de Deus - o nosso Pai e Guia.
Tratava com carinho e amor as criancinhas,
em cuja voz ouvia a voz das andorinhas.
Cantava de manhã, "rezava a Ave-Maria",
um hino ao sol tecia ao fim de cada dia.
Sem ódio e sem rancor, na trilha da verdade,
pregava sem temor - justiça e Liberdade!
Chicoteado e preso ao tronco de madeiro,
sincera a voz soltou no verso derradeiro:
- Não sou Nero, nem judas, nem Caim,
tenho a chaga do amor dentro de mim!
O Parnaíba
Águas turvas, imenso, vagaroso,
o Parnaíba desce para o mar.
Qual um molusco, lerdo, preguiçoso,
parece sem vontade de chegar!
Sereno, vai andando, majestoso,
o aguaceiro barrento a deslizar...
E nas margens um bando vaporoso
de garças cor de neve a esvoaçar...
Ó velho Parnaíba dos poetas!
O progresso mudou o teu destino
e te deu novas e importantes metas!
És portador de um mundo de esperanças...
E o povo do Nordeste canta o hino
do sonhado futuro de bonanças...
Silhueta Pagã
Não sei donde surgiu. Mas de repente
se encontrava comigo conversando.
Os olhos nos meus olhos, frente a frente,
eram dois pintassilgos namorando.
De alto porte, bonita, inteligente,
a estirpe de fidalgos demonstrando,
não podia ocultar o ser ardente
na volúpia do amor se acrisolando.
Silhueta pagã. Onde passou
a natureza em si paralisou
e o povo abriu honrosa passarela.
Silenciaram todos os ruídos.
E sinto que ficou nos meus ouvidos
a sonora canção dos lábios dela.
Trovas
Sou poeta e fui vaqueiro
- qualidades bem diversas.
No cavalo fui ligeiro
atrás das reses dispersas!
Tenho saudade das matas,
dos verdejantes baixões,
do feitiço das mulatas
nos pagodes dos sertões.
Adorei as noites belas
neste mundão de meu Deus,
Conversando com as estrelas
luzindo no azul dos céus.
Curtinha está minha vista,
andando estou de bengala!
Mesmo que a velhice insista,
só falta de amor me abala!
Despedida
Vou deixar-te, formosa Teresina,
Depois de sofrimentos, de torturas,
Sorvidos entre tantas amarguras
Como vinho do mal e da ruína.
Nos teus jardins que áureo esplendor domina
E onde cantei meus dias de venturas,
Ficam hoje, fidalgas criaturas,
Contemplando o teu porte de menina.
Não me maldigo, eu, de não fazê-lo,
Porque, se quer assim a minha sorte
De longe, poderei em sonho vê-lo.
Recebe, pois, na hora da partida,
Em que canto somente por ser forte,
Minha saudade - a minha despedida!