| João Francisco Ferry nasceu em Valença a 16 de abril de 1895, recebendo as lições da primeiras letras dos seus próprios pais, no casarão espaçoso à entrada de sua terra. De origem humilde, João Ferry não teve condições de continuar os estudos, tornando-se poeta "mais pela saudade e pela desgraça perene da terra", como assinala J. Miguel de Matos. A poesia de João Ferry tem duas fases. A fase do parnasianismo multiforme, onde o lirismo solto e livre predomina sobre a métrica e a uniformidade estilística. A segunda é a compreensão dos rumos novos a que se destinava a poesia, procurando libertar-se dos processos matemáticos da métrica e da forma. Ensaiou passos na direção dessa nova ordem, mas não prosseguia a caminhada. Não teve tempo. Sensibilidade visível e forte, "Ferry morreu como viveu, carregando ao longo dos sessenta e seis anos bem vividos as amizades que fez, deixando amizades e, em todas elas, uma revolta imensa contra a morte, que o chamou tão cedo para o convívio sem angústia da eternidade", como exaltou Eulino Martins, no empolgante panegírico que proferiu sobre o seu túmulo. Poeta, jornalista, teatrólogo. Suas peças, levadas à encenação em todo o Estado, marcaram os primórdios da arte teatral no Piauí. Membro da Associação Profissional dos Jornalistas e do Cenáculo Piauiense de Letras. Patrono da Cadeira 38 da Academia Piauiense de Letras. |
Obras: Princípios (1914); Os Meus Sonetos (1916); Vós a Voz, Avós a Vós (Conferência Literária - 1920); Em Busca de Luz (1922); Quem Tudo Quer, Tudo Perde (comédia, 1922); O Cabeção (1937); Chapada do Corisco (1952). |
Cabeça-de-Cuia
Não Se Pode
Valença do Piauí
Fim de Escola
Cabeça-de-Cuia
Com o sol a pino, um dia, no Poti
Um pescador voltou da pescaria;
Vinha fulo, porque no seu pari,
Um peixinho sequer, nele caía.
Alegre a velha mãe o aguardava
Com o almoço frugal que de costume,
Para o filho querido preparava,
Quando vinha feliz com seu cardume.
Nesse dia , zangado, o belo moço,
Tratou mal a velhinha e aos palavrões,
Recusou-se aceitar o seu almoço,
- Uma ossada gostosa com pirões.
Em vão a velha mãe bondosamente,
Com mimos, com carinho e com amor,
Procurou acalmar o imprudente,
Que tomando de um osso, um "corredor"...
Bateu na velha mãe, louca fúria,
Esmurrou-lhe a cabeça veneranda
E cobrindo-a de apodeos e de injúria,
Mostrou sua alma, negra e execranda.
Com a dor, a velhinha atordoada,
No terreiro da casa ajoelhou,
"Filho ingrato, cruel, desnaturado",
E mil pragas do céu ela invocou...
"Filho maldito, o rio há de tragar-te
E entre todas as tuas agonias,
De monstro que tu és, para salvar-te
Haverás de engolir 7 Marias...
E o filho, como um louco caiu n'água
No lugar "Poti Velho"e ali sumiu-se,
E a velhinha chorando a sua mágoa,
Ao sol quente, de dores sucumbiu-se.
E é voz corrente que o Poti gemendo,
Quando a cheia do rio em fúria desce,
O "Cabeça-de-Cuia",um monstro horrendo,
nas águas a boiar sempre aparece.
E ao que consta, até hoje, o imprudente
Não conseguiu tragar uma só Maria...
E há de viver assim eternamente
Um fantasma da dor e da agonia.
Não Se Pode
Quando eu era menino andava em voga
A história da "Não se Pode",
Uma mulher esguia, que de toga
Corno um fantasma, à toa, de pagode
Altas horas da noite então vagava.
E quando alguém seu nome perguntava
Invariavelmente respondia,
Com a voz cava e cheia de agonia:
"Não se Pode!" "Não se Pode!"
Era um fantasma esquisito e feio
De estatura comum, mas que crescia
Toda vez que cigarros acendia
Nos lampiões das esquinas e do passeio.
Escaveirada, de carão ossudo,
Olhos sem brilho, sem nenhum clarão,
A "Não se Pode" era um duende mudo
Alma penada pela solidão.
Soldados de patrulha da cidade
Uma noite entenderam de segui-la.
Mas a "Não se Pode", corno um cão de fila,
Evitava qualquer intimidade.
Suas pegadas no chão jamais se viu
E do velho quartel para o mercado,
Seus pontos preferidos,
Era como um vulto malfadado
Dos mistérios do além, desconhecidos...
E quando uma noite fugia pelo espaço
"Não se Pode" também no seu regaço
Em fumaças de pós se desfazia...
A minha alma também é assim
Se alguém sacode os sofrimentos
que meu peito esconde
Pressurosa e bem triste ela responde:
"Não se Pode!" "Não se Pode!"
Valença do Piauí
200 anos! Como está velhinha!
Mas tão linda, tão guapa, tão bonita,
Parecendo hoje ser uma mocinha,
Com um diadema de fita,
Tendo no peito uma rosa,
Sobre o seu vestido novo,
Que te faz tão graciosa
Ao doce olhar do teu povo.
200 anos de deslumbramentos!
Mas que lutas meu Deus, quantos tormentos,
Para vencer a estrada caprichosa
Conquistando esta data gloriosa
Que hoje feliz com inusitado brilho
Mostra o progresso conquistado e forte,
Recebido do amor de cada filho
A quem tiveste confiada a sorte.
200 anos! Como está velhinha!
Mas tão linda, tão guapa, tão bonita,
Parecendo hoje ser uma mocinha,
Com o seu vestido de chita
Fazendo inveja aos rapazes,
Que te querem namorar,
Mas que ainda não são capazes
De contigo se casar.
Minha querida e imortal Valença!
Hoje teus filhos com alegria imensa,
Glorificando o teu bicentenário,
Fazem de ti um talismã lendário,
Que lhes dará todo um porvir brilhante
Na tua gloriosa trajetória
Para que num futuro bem distante
Maiores loiros tenha a tua história!
Fim de Escola
Na escola toda vez, quando aparece
O exame final do fim do ano,
Nervoso cada qual faz uma prece,
Receando sofrer um desengano.
Boas notas só tem quem as merece,
E quem as obtém vaidoso e ufano,
Muitas vezes até depressa esquece,
Da professora e seu trabalho insano.
E o aluno fica alegre e mui contente,
Para gozar as férias bem feliz,
No lar para onde volta sorridente.
Mas acontece que o aluno mau,
Que de vadio estudar não quis,
Volta pra casa, mas só leva pau!...