Hermes Vieira



          Hermes Rodrigues Cardoso Vieira é de Elesbão Veloso. Nasceu a 23 de setembro de 1911 na Fazenda Caiçara. Fez apenas o primário, forte crise financeira não o deixou prosseguir com os estudos. Ainda pequeno foi morar em Palmeirais, de onde seguiu para Parnaíba e em seguida para Teresina, onde fixou residência. Poeta regionalista dos mais festajados, autor de vários poemas cantados por todo o nordeste brasileiro, tem aquela verse contagiante de Catulo da Paixão Cearense e o lirismo fascinante e simples de Hermínio Castelo Branco.

          Obras: Nordeste (198?); Piauí Sertão (1988).


Meu Nordeste (Introdução)
Trovador da Roça
Lamento de um Retirante Órfão


Meu Nordeste (Introdução)

Meu Nordeste feiticeiro,
Morenão de brônzeo peito,
Genuíno brasileiro,
Eu me sinto satisfeito
Em ser filho de um teu filho
E do chão por onde trilho,
Que venero com respeito.

Meu Nordeste das moagens
Nos engenhos de madeira,
Dos açudes, das barragens,
Da lavoura rotineira,
Das desmanchas de mandioca,
Do foguete-de-taboca
Irmão gêmeo da ronqueira;

Meu Nordeste onde os velórios
São rezados no sertão,
E improvisam-se os casórios
(Sem juiz, sem capelão),
Os padrinhos e os compadres,
As madrinhas e as comadres,
Na fogueira de São João;

Meu Nordeste do bornal,
Rifle, bala e cartucheira,
Da "lombada" e do punhal,
Da "garrucha" e da peixeira,
Do cacete e do facão,
Com que um cabra valentão
Desmantela festa e feira;

Meu Nordeste em rede armada
(De algodão ou de tucum).
Aguardando a maxixada
Com quiabo e jerimurn,
Mel, canjica e milho assado,
Feijão verde e arroz torrado,
Na semana de jejum;

Meu Nordeste do baião,
Que estremece e põe "maluca"
A cabocla pé-no-chão
Do cocó ligado à nuca;
Meu Nordeste dos festejos,
Dos beijus, dos brós, dos queijos,
Da coalhada na cumbuca;

Meu Nordeste a boi de carro...
Carro-de-boi do Nordeste,
Tosco, humilde, simples, charro,
Submisso e a nada investe,
Que arrastado estrada afora,
Range, grita, canta e chora
Ajoujado à canga agreste;

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Trovador da Roça

Eu sou fio do alto do sertão
Fui vaquêro e tombém fui caçadôr.
Na viola, chorando no meu peito,
No terrêro, ao luá, fui trovadô.

Muitos tôros bravio na caatinga
Com o aboio sereno eu dominei;
Muitos brabo e rebelde coração,
Na viola, ao luá, eu conquista.

Muitos tigre valente, na floresta;
Abati cum certêra pontaria;
Muitas fera de saia de argudão
Dominei cum as minhas canturia.

Té qui um dia, caçando num forró,
Atirei bem no zói de meu afeto;
Desse tiro hoje vejo im meu redó
Quinze fio e noventa e nove neto.

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Lamento de um Retirante Órfão

Seu doutô, vosmincê tá bisservando
Bem prali, mais pra lá desses lagêro,
Uma cova e uma crúìz já disbotando
Bem pertim desses pés de mamelêro?

Apois é nessa cova, meu patrão,
S'apagando e cuberta de capim,
Quaje nu, sem mortáia e sem caxão,
Onde tá sipurtado meu paizim.

Vê tombém essas outas piquinina
Onde o só tá bejando cum seus rai?
Sào dos meus rimãozim - Bento e Cristina,
Qui morrero do jeito de papai.

Foi a seca, esse monsto do Nordeste,
Qu'inscanchada num só devoradô,
Conduzindo um surrão de fome e peste,
Meus trêis entes quirido aqui matou.

Vivo só cum mamãi, pobe e duente,
Supricando do povo a cumpaixão;
Mais porém, muntos sombra e ri da gente
E nos dão disingano im vêiz de pão.

E o pió disso tudo, cá pra mim,
É si vê passá era e chegá era
Intregando pra muntos leite e vim,
E pra nóis sofredô, fome e miséra!

Muntos diz qui o Gunverno sempre dá
Uma ajuda pr'aqueles qui têm fome;
Mais porém, quando a ajuda sai de lá,
Outra Seca pió lhi agarra e come!

Quando chega os momento d'inleição,
As promessa têm chêro de alimento;
Mais, dispois, junto o vento elas si vão,
E nóis fica no mêrmo sufrimento!

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